Por que as empresas brasileiras voltaram a captar recursos através do mercado de capitais ou de ações?
Em 2004 ocorreram 12 relevantes lançamentos de ações, sendo 7 aberturas
de capital e 5 referentes a empresas já listadas. Essas operações
captaram mais de R$ 7,5 bilhões. . Para dar uma dimensão da relevância
deste número, nos sete anos entre 1995 e 2002 foram captados apenas R$
1,1 bilhão em operações similares.
Algumas respostas podem ser dadas: busca de governança corporativa,
crescimento da economia brasileira, menor custo de captação diante do
alto patamar da taxa de juros brasileira e necessidade de ganhar mais
visibilidade em relação aos investidores.
Por Paulo França da redação do SOECONOMIA em Brasília.
08/fev./05 - 13h22min
Para quem passou os últimos 10 anos dizendo que o mercado de capitais
brasileiro tem futuro, pode crescer e ajudar o desenvolvimento do País,
o ano de 2004 pode ser visto como uma verdadeira redenção. Depois de
ter a sua morte anunciada várias vezes, o mercado de ações renasceu com
força total nos lançamentos de novas empresas.
No ano, tivemos pelo menos 12 lançamentos relevantes de ações, sendo
sete aberturas de capital e os restantes referentes a empresas já
listadas. Estas operações captaram mais de R$ 7,5 bilhões. Para dar uma
dimensão da relevância deste número, nos sete anos entre 1995 e 2002
foram captados apenas R$ 1,1 bilhão em operações similares.
Mas o que será que as empresas que conseguiram acessar o mercado - uma
pequena minoria dentro do universo corporativo brasileiro - possuem em
comum para ter "atiçado" o apetite dos investidores desta forma?
Primeiramente, uma questão óbvia: governança corporativa. A maioria dos
lançamentos de ações foi de empresas listadas no Novo Mercado ou no
Nível 2 (que possui basicamente as mesmas proteções, mas que permite
ações preferenciais).
Este fenômeno significa a coroação da dedicação e do esforço hercúleo
da Bovespa num projeto visionário desenvolvido em 2001. Se no início o
Novo Mercado encontrou um grande ceticismo sobre sua viabilidade, hoje
é um sucesso mundial. A bolsa brasileira merece crédito não apenas pela
sua criação, mas também pela manutenção de sua credibilidade e da
estabilidade de regras durante os períodos de críticas.
Criação de valor
Logicamente, a mera existência do Novo Mercado não foi o único fator
que permitiu o renascimento do mercado primário de ações. Tampouco se
pode dizer que as regras resumam tudo o que diz respeito às boas
práticas de governança. Mais do que uma garantia de segurança, a adesão
ao Novo Mercado fornece uma robusta sinalização aos investidores - que
deve ser complementada diariamente ao se integrar o espírito destas
regras e dos códigos de boas práticas em todas as atividades da
administração.
Vale dizer que as empresas que lançaram suas ações não aderiram ao Novo
Mercado apenas por achar bonitinho. Elas se convenceram que praticar
boa governança gera valor e, se esta prática for percebida pelo
mercado, gera acesso ao capital. Ficou claro que os investidores
aprenderam com os abusos do passado e hoje se recusam a adquirir
títulos sem proteção ou recheados de conflitos de interesses.
Mas a adesão ao Novo Mercado não é a única característica que une as
empresas que lançaram ações no ano passado. Um ponto fundamental é a
solidez dos seus negócios, suas vantagens competitivas e suas taxas de
crescimento. De nada adianta ter uma excelente governança corporativa,
se o negócio for ruim. Todas as novas empresas submeteram aos
investidores um plano de negócios interessante, e continuaram
entregando bons resultados após a oferta de ações.
Outro fator comum a estas empresas é a vocação para o mercado.
Contrariamente à maioria das empresas abertas brasileiras, as que
abriram seu capital em 2004 o fizeram pelos motivos corretos: atração
de capital para a companhia e/ou para os controladores, diversificação
de risco destes e perpetuação da companhia. As vantagens da empresa
aberta no acesso ao capital são facilmente entendidas, mas a
perpetuação é um fator um pouco mais complexo.
Perenidade
Uma das empresas que ofereceu ações em 2004, por exemplo, está longe de
precisar de capital. Tem caixa líquido, forte lucratividade e
excelentes perspectivas de crescimento. O que levou os controladores
desta companhia a se aproximar do mercado foi a percepção de que uma
companhia aberta está muito menos sujeita aos caprichos que costumam
afligir as empresas familiares fechadas, principalmente depois de
passar para a segunda ou terceira geração. A companhia que se consolida
como uma empresa de "mercado" garante a profissionalização da
administração e a própria sobrevivência da empresa, separando os
interesses familiares dos corporativos.
Estas empresas diferem da maioria das nossas "blue chips", que
certamente abriram seu capital pelo que se podem considerar motivos
errados nas décadas de 60 e 70. Algumas o fizeram para se beneficiar de
incentivos fiscais ou da presença de compradores compulsórios de ações,
entregando em troca papéis de baixa qualidade, sem direito a voto ou
maiores proteções. Conseguiam assim capital quase de graça sem ter que
se preocupar com a prestação de contas ou transparência, agindo como se
ainda fossem fechadas.
Outras, então estatais, abriram seu capital como forma de contornar as
limitações fiscais do governo, por vezes obrigando um cidadão que
queria apenas uma linha telefônica a comprar um polpudo lote de ações.
Estas empresas também não buscavam sócios, e sim capital quase
gratuito, em troca de um papelucho que só dava o direito de ficar
calado.
Hoje isto mudou. As novas empresas abertas não apenas procuram entender
o que querem os investidores, mas buscam diferenciar-se. Investem em
departamentos de relações com investidores, competem para ver quem tem
a melhor transparência, contratam formadores de mercado para aumentar a
liquidez, e colocam em seus estatutos regras que garantem a equidade
entre todos os acionistas.
Infelizmente, estas novas empresas ainda são minoria. Temos todo um
lixo histórico formado por más S.A.s que não vai simplesmente sumir.
São empresas que, se pudessem, fariam as malas e sairiam das bolsas.
Empresas com cultura de fechadas. Empresas mal privatizadas, na qual o
controlador investiu menos que 1% do capital total, colocando-o em
grande conflito de interesses com os minoritários. Empresas que não dão
tag along.
A seleção natural dos investidores se encarregará de reduzir a
relevância destas empresas. É claro que a metodologia do nosso
principal indicador de mercado - o Ibovespa - colabora para retardar
este processo, dando um peso desproporcional a empresas do passado e
discriminando as novas empresas abertas. Mas, ainda assim, o processo é
irreversível.
[06 de janeiro de 2005]
Fonte: Lições dos IPOs - parte 1
Mauro Rodrigues da Cunha
Conselheiro do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC),
diretor de Investimento da Bradesco Templeton Asset Management e mestre
de Administração de Empresas pela Universidade de Chicago. |