O testamento de Lessa
Ex-presidente do BNDES antecipa
trechos do livro em que ataca política econômica
e revela bastidores do poder.
Como não deixaram o ex-presidente do BNDES fazer um discurso na
cerimônia de transmissão de cargo, ele resolveu contar tudo - que
ocorre dentro dos gabinetes do governo federal - em um livro que está sendo
lançado.
Não faltaram críticas em relação aos bancos, empresas e no tocante a alguns dos atuais ministros.
De Paulo França da redação do SOECONOMIA em Brasília.
08/fev./05 - 13h28min
| Biô Barreira |
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| Lessa, em sua biblioteca:
Livro narrando passagem pelo BNDES sai em março
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A rua fica num dos pontos mais bucólicos do Rio de
Janeiro, ao pé do morro do Corcovado e em frente ao
Largo do Boticário, Cosme Velho, bairro que tanto inspirou
Machado de Assis. No jardim do centenário casarão
de três andares, restaurado por inteiro pelo atual proprietário,
passeiam macacos silvestres e aves em extinção.
Lá dentro, no terceiro pavimento, onde foi instalada
uma soberba biblioteca com 5 mil livros raros sobre o Brasil,
toda manhã um velho escriba senta-se na cadeira de
couro entalhado e empunha a caneta para rascunhar, à
mão, o mais novo capítulo da história
econômica brasileira. Aos 68 anos, Carlos Lessa, economista
criativo, professor respeitado, escritor profícuo,
ex-presidente do BNDES - mas sobretudo um polemista
-, está escrevendo o seu testamento. "Vai
ser uma bomba", festeja. "Todo mundo vai querer
ler". Essa peça bombástica, ressalte-se,
é um livro. Com o título Dos Sonhos ao Pesadelo,
promete ser um grande manifesto do pensamento econômico
desenvolvimentista contra a política macroeconômica
neoliberal do atual governo do PT. Quais são os sonhos
do título? "Ao me chamar para o BNDES, Lula me
mandou criar o banco dos sonhos do povo", explica o
autor. E o pesadelo? "Ora, o Meirelles", responde.
"O pesadelo é a eliminação do BNDES,
uma aspiração do sistema financeiro privado
que se transformou numa política institucional conduzida
pelo sr. Meirelles."
No atual estágio da vida, não há nada
no mundo que deixe Lessa mais exaltado do que falar sobre
o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Boa parte
do livro, segundo adianta com exclusividade para DINHEIRO,
é para denunciar a tentativa dos grandes bancos privados
de esvaziar, com o suposto apoio de Meirelles, o crédito
direcionado dos bancos oficiais, BNDES, Banco do Brasil e
Caixa Econômica Federal.
"Enquanto essa idéia
absurda só era defendida em público por acadêmicos
e pelo Joaquim Levy (secretário do Tesouro), fiquei
quieto", revela Lessa no livro. "Mas quando vi
Meirelles encampá-la, senti um pesadelo". O ácido
começa a ocupar a pena do polemista. "O Meirelles,
coitadinho, disse que tinha que empurrar a Selic para cima
como sinal de advertência ao mercado, pois o peso dos
empréstimos direcionados seria muito grande. Então
propus o Nobel para o Meirelles por sua criatividade e fui
demitido." Lessa ainda está no início
do livro - mas as idéias principais estão
sendo registradas antecipadamente. "Consigo
terminar tudo antes de março", promete. O primeiro
capítulo, sobre seus sonhos no BNDES, já está
pronto. O segundo, uma tese sobre o potencial econômico
do Nordeste, fechou na segunda-feira 31. Até o final
do Carnaval ele pretende terminar de organizar seus registros
sobre os setores siderúrgico, petroquímico e
de bens de capital. "Vou baixar o sarrafo nos vendilhões
da pátria", adianta. "Esses meninos da
AmBev, por exemplo, usaram o BNDES e depois se entregaram
aos belgas para converter o patrimônio em euro".
É nessa parte do livro que estão reservadas
muitas pancadas para o ministro Luiz Furlan, do Desenvolvimento.
"O Furlan apoiou essa operação, chamou
de multinacionalização", ataca.
| Biô Barreira |
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| O manifesto do intelectual:
"Vai ser uma bomba. Todo mundo vai querer ler" |
Carlos Lessa decidiu escrever o livro porque o presidente
Lula não deixou que seu sucessor Guido Mantega organizasse
a cerimônia de transmissão de cargo. "Fiquei
magoado com Lula", revela. Ele já tinha preparado
um discurso antológico, prestando contas de sua gestão,
verdadeiro libelo do desenvolvimentismo econômico. "Era
um momento privilegiado para mim", diz. "Seria
nessa cerimônia, quando meus inimigos fossem lá
aplaudir minha demissão, que eu teria a chance de obrigá-los
a engolir a minha verdade". Esse discurso está
sendo em boa parte incorporado ao livro. "Mas não
será um livro denúncia, nem de bastidores",
explica o autor. Imagina se fosse. A parte mais quente da
obra foi reservada para os últimos capítulos,
batizados de "O Pesadelo" e "Com Chapéu
de Economista". Carlos Lessa não vê a hora
de disparar a tinta da caneta revelando as ilusões
do presidente Lula com a falácia dos banqueiros internacionais
e a teimosia do ministro Antônio Palocci em seguir as
receitas ortodoxas do Fundo Monetário Internacional.
"O ministro é aquele médico que sofre
da Síndrome da Terra Prometida", compara Lessa.
"Acha que o paciente precisa da terapia trágica
do FMI, com drogas pesadas, na qual sofre, sofre acreditando
que um dia vai atravessar o deserto rumo à Terra Prometida".
| Biô Barreira |
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| Sede do banco:
Lessa diz que caiu por ser patriota |
Mas qual a receita, afinal, para conduzir o Brasil ao desenvolvimento?
A fórmula de Lessa tem cinco pontos - que partem
do princípio de que o País precisa elevar a
taxa de investimento de 18% para 23% do PIB. "Mas só
é possível depois que o Banco Central baixar
os juros para permitir os investimentos públicos em
infra-estrutura", ensina. "Isso é tão
óbvio, só o Meirelles e o Palocci não
conseguem enxergar". Por muito polêmico, há
um ponto de suas memórias que Lessa ainda não
decidiu se incluirá nesse livro. Na segurança
de seu casarão, ele baixa a voz para revelar que o
presidente estaria encurralado pelos banqueiros internacionais.
"O Lula já não pode mais demitir o Meirelles,
senão o risco Brasil dispara", confidencia. E
qual a saída? "Costurar um pacto anti-inflação
com empresários e trabalhadores", propõe.
"Isso permitiria enfrentar os banqueiros e baixar a
Selic". Uma ave rara se aproxima da janela de Lessa.
É um jacu, galináceo em extinção.
Assim como os desenvolvimentistas. 
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LEIA
TRECHOS DO LIVRO DO SONHO AO PESADELO, DE CARLOS
LESSA
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Sobre Luiz Fernando Furlan
"Nossa relação começou
muito mal. Nunca tinha ouvido falar dele, pensava
até que seu nome fosse só Luiz Furlan.
No primeiro encontro, tentei ser simpático
e contei uma piada sobre a 'fernandécada'.
Disse que Fernando Collor e Fernando Henrique
haviam sido gafanhotos destruindo a Terra e que
esse nome era uma desgraça nacional. Só
depois descobri que ele também é
Fernando. Fiz um estrago irreparável na
relação e nunca aceitei me subordinar
a ele."
Sobre
Henrique Meirelles
"O meu pesadelo é a eliminação
do BNDES, uma aspiração do sistema
financeiro privado e do senhor Henrique Meirelles.
Ele, na companhia do Joaquim Levy, do Tesouro
Nacional, argumentava que o Banco Central precisava
aumentar os juros porque o volume de crédito
dos bancos privados teria um peso pequeno no mercado,
diante da grande participação do
BNDES. Então, eu propus o Nobel de economia
para o Meirelles por sua criatividade e fui demitido."
Sobre
Antônio Palocci
"O ministro da Fazenda é aquele médico
que sofre da síndrome da Terra Prometida.
O paciente tem a febre recorrente da inflação?
Está vulnerável a ataques cambiais?
Então precisa da terapia trágica
do FMI, com drogas pesadas, na qual o paciente
sofre e um dia atravessa o deserto. Propus ao
Palocci reduzir o superávit, mas ele continuou
acreditando no FMI."
Sobre
Lula
"Lula acredita no canto da sereia da estabilização.
Está convicto de que se o Brasil for comportado,
mais cedo ou mais tarde virá uma enxurrada
de dólares. Uma vez eu lhe disse: ‘O
senhor está errado, o capital não
virá, pois já veio e agora corre
para onde tem crescimento'. Ele encaixou
a observação e não respondeu
nada. Entre o Lessa e um banqueiro, ele acredita
no banqueiro."
Sobre
José Dirceu
"Dirceu tem uma visão muito boa sobre
as reais prioridades para o desenvolvimento. É
um operador político nato e dança
segundo o cenário político imediato.
Me dei muito bem com ele em todas questões
envolvendo o BNDES. O melhor é que jamais
recebi bilhetinhos mandando receber fulano ou
afrouxar com sicrano."
SOECONOMIA em 06/fev/05
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