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Valorização cambial prejudica competitividade do agronegócio brasileiro PDF Imprimir E-mail

Publicado em 05 de novembro de 2009 (15h45min)

Paulo França*

soeconomia@soeconomia.com.br

www.soeconomia.com.br

A volatilidade cambial foi maior na taxa de troca entre reais e dólares o que resultou em perda de rentabilidade ao produtor rural

Segundo estudo da Sociedade Rural Brasileira o real obteve uma valorização de 32% frente ao dólar entre dezembro de 2008 até setembro deste ano. O euro, por sua vez, registrou uma valorização de cerca de 8,1% em relação à moeda americana no mesmo período.

Com a volatilidade cambial maior na taxa de troca entre reais e dólares do que entre outras moedas, as exportações agropecuárias brasileiras, especialmente as commodities, cujo fator preço é preponderante e a taxa de câmbio é fundamental, vêm sofrendo perdas de competitividade e rentabilidade.

A soja, por exemplo, ficou 32% mais cara no mercado internacional. O preço médio da saca de soja (60 kg) cotada na bolsa de Chicago em setembro estava na casa dos US$ 20,60. Levando-se em conta a taxa de câmbio média de dezembro de 2008 (R$ 2,40 / US$) a importação por um país de uma saca de soja brasileira custaria US$ 8,60, ao passo que em setembro último, quando a taxa de câmbio média ficou em R$ 1,82/US$, a mesma saca de soja custaria ao importador US$ 11,30.

Já o sojicultor teve uma queda de rentabilidade de 24,2%, uma vez que receberia R$ 49,44 pela saca de soja caso a exportação fosse efetuada em dezembro do ano passado, valor que passaria para R$ 37,47 caso a exportação fosse efetuada em setembro último.

O estudo da Rural ainda atesta que, apesar das variações cambiais, as exportações brasileiras de algumas commodities - açúcar, algodão e suco de laranja - ainda mantêm uma margem positiva de rentabilidade e têm mantido uma significativa taxa de crescimento, gerando ganhos de participação no mercado internacional.

No caso da soja, milho e café, mesmo com a perda de rentabilidade registrada entre dezembro de 2008 e agosto último, a margem de lucro ainda se mantém positiva, com os preços de comercialização ainda sendo superiores aos custos de produção, fazendo com que a taxa de câmbio, em si, não seja motivo de preocupação, mas sim sua tendência definida de valorização, o que pode afetar diretamente a capacidade produtiva do setor sem endividamentos.

Impacto no agronegócio nacional

Além da perda de rentabilidade e competitividade, com um processo de valorização cambial contínuo, ocorre o barateamento dos produtos importados. Com isso, os produtos nacionais apresentam uma redução de margem de comercialização tanto no mercado interno quanto no mercado global. Por outro lado, a remuneração aos produtores rurais, pela indústria, também tende a diminuir, gerando um processo de perda de capacidade de crescimento de um setor que representa mais de 26,0% do PIB nacional.

Outro impacto da valorização cambial está na redução dos investimentos por parte dos produtores rurais e das grandes indústrias, resultando, em um primeiro momento, no encarecimento dos insumos da agroindústria e na redução de sua competitividade.

Esse processo de valorização das taxas de câmbio ainda reduz a capacidade de inserção da Brasil como um player de destaque no rearranjo econômico global, processo que se consolida com a maior importância dos países emergentes (com destaque para os Bric's) na economia mundial.

Desafio

O agronegócio brasileiro é uma oportunidade estratégica para o crescimento da economia nacional no mercado mundial. Por isso, a política monetária deve estar adequada para que o setor agropecuário seja um irradiador de sua competitividade através da agroindústria.

A valorização do dólar (ou de desvalorização da taxa de câmbio) permite que as margens de comercialização dos produtores rurais e da agroindústria se ampliem com uma maior atratividade das exportações brasileiras no comércio mundial.

Porém, o ideal não é um câmbio sobre-desvalorizado, o que encareceria demais as importações de bens de capital, reduzindo as taxas de formação bruta de capital fixo (investimento), sem gerar o benefício do crescimento e desenvolvimento econômico desejado.

Importância para a economia brasileira

Segundo cálculos do CEPEA - Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, a produção agropecuária representa 7% do Produto Interno Bruto da economia brasileira no ano de 2008, participação que apresenta estabilidade nos últimos 14 anos, variando de uma participação mínima de 6,0% em 2006 e máxima de 7,8% em 2003.

Porém, a participação do PIB agropecuário entre os estados brasileiros apresenta a relevância desse setor entre as diversas regiões do Brasil. Considerando os dados de 2006, o PIB agropecuário representa 19,8% do PIB dos estados que compõe a região Centro-Oeste, importância que se reduz para 12,8% na região Nordeste e 12,0% na região Sul. Nas regiões Norte e Sudeste a participação média do PIB agrícola sobre o PIB regional é de 11,6% e 5,7% respectivamente.

A participação do PIB agropecuário sobre o PIB estadual do Mato Grosso foi de 22,2% em 2006, com significativas taxas de participação nos estados de Rondônia (17,1%) e Tocantins (16,7%). Por outro lado, os estados de São Paulo (1,8%), Rio de Janeiro (0,4%) e Distrito Federal (0,2%) são as regiões com menor taxa de participação do PIB agropecuário frente ao PIB total da região.

Essas taxas de participação evidenciam a importância que o setor agropecuário primário tem na dinâmica de desenvolvimento regional, sendo um importante vetor de crescimento econômico em regiões distantes do pólo Sul-sudeste.

Quando se considera toda a cadeia agroindustrial, os cálculos do CEPEA apontam para um participação de 26,5% do PIB nacional. Entre os anos de 2007 e 2008, o PIB da agroindústria registrou taxas de crescimento superior às taxas registradas pelo PIB total; em 2007, enquanto a economia brasileira registrou variação anual de 5,7%, o PIB do complexo agroindustrial apresentou taxa de 7,9%, passando para 7,0% de crescimento em 2008 (quando o PIB brasileiro registrou elevação de 5,1%).

* Paulo França é o Publisher do SOECONOMIA e Economista pela Universidade de São Paulo, com Cursos em Ciências Políticas e Administração de Empresas no Mestrado Stricto-Sensu. É articulista econômico em Jornal (Boletim de Notícias de Goiás), tendo também experiências em Revistas, Rádio, TV e Internet. Palestrante em diversos estados do Brasil ministrando cursos de captação de recursos para o terceiro setor e setores financeiro, em mineração, bens de capital, celulose,tecnologia, hotelaria, automotivo, entre outros. Consultor em investimento e financiamento. Criador do Soeconomia (veículo de comunicação, www.soeconomia.com.br). Autor do Livro Captação de Recursos para Projetos e Empreendimentos com 3.000 exemplares editados e disponível nas Livrarias Senac, Cultura, FNAC, MegaSaraiva, Submarino, entre outras.

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