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Publicado em 14 de setembro de 2009 (12h07min)
Paulo França*
soeconomia@soeconomia.com.br
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O xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum, o soberano de
Dubai, vendeu-a ao mundo como a cidade das Mil e Uma Luzes, uma Sangri-lá do
Oriente Médio protegida das tempestades de areia que assolam a região.
É abril de 2009 e alguma coisa está mudando
no sorriso do xeque Mohammed. Nessa terra do Nunca edificada num extremo do
mundo, as rachaduras começam a aparecer. Dubai é uma
metáfora viva do mundo globalizado neoliberal que pode
estar desmoronando.
Entre os guindastes espalhados por toda
parte, muitos estão paralisados, como que perdidos no tempo, e
há inúmeros canteiros de obras inacabados, num abandono
completo.
A canadense Karen Andrews chegou a
Dubai quatro anos atrás. O marido tinha conseguido um bom emprego
numa multinacional. Assim que o casal aterrissou no emirado, em
2005, as apreensões desapareceram. "Parecia uma
Disneylândia para adultos, com o xeque Mohammed no papel de
Mickey", relembra.
"A vida era fantástica". Não tardou muito e
Daniel, o marido de Karen, comprou dois imóveis. Mas, pela primeira vez na
vida, ele se embaralhou nas finanças. Karen começou a estranhar as confusões
financeiras do marido.
Passado um ano, descobriu que Daniel tinha
um tumor maligno
no cérebro. "Até então, eu não sabia
nada a respeito das leis de Dubai, imaginei que o sistema local deveria ser
parecido com o do Canadá, ou de quaquer outra democracia liberal". Ninguém
lhe havia contado que em Dubai não existe o conceito falência. Quem
se endividar e não tiver como pagar vai para a cadeia.
Em Dubai, quando um funcionário larga o
emprego, o empregador tem o dever de comunicar o fato ao seu banco. Caso tenha
dívida em aberto, todas suas contas são bloqueadas e ele fica proibido de sair
do país. "De repente, nossos cartões de crédito pararam de funcionar.
Fomos despejados do nosso apartamento e não tínhamos mais nada". Daniel
foi preso no dia do despejo, condenado a seis meses de prisão diante de uma
corte que só falava árabe, sem tradução.
"Agora estou aqui, sem nada,
aguardando que ele saia da prisão", explica a mulher. Karen dorme dentro
de um Range Rover há meses, no estacionamento de um dos hóteis mais chiques de
Dubai, graças à caridade dos funcionários bengaleses, que não tiveram coragem
de expulsá-la.
O caso de Karen não é único. Por toda a
cidade existem imigrados dormindo clandestinamente nas dunas de areia, no
aeroporto ou no próprio carro. "É preciso entender que em Dubai nada é o
que aparenta ser", resume a canadense. "Você é atraído pela idéia de
um lugar moderno, mas por trás dessa fachada o que temos é uma ditadura
medieval."
Trinta anos atrás, quase toda a área onde
se ergue hoje o emirado de Dubai era deserta. Foi quando os ingleses
bateram em retirada; a dominavam desde o século XVIII. Até que em 1971, Dubai
se juntou a seis pequenos estados vizinhos e formaram a federação dos Emirados
Árabes Unidos. A retirada britânica coincidiu com a descoberta de generosos
lençóis de petróleo na região.
Al Maktoum decidiu fazer o deserto
enriquecer. Planejou construir uma cidade que se tornasse o centro do turismo
e de serviços financeiros, atraindo dinheiro e profissionais do mundo inteiro.
Convidou o mundo a seu paraíso fiscal - e o mundo veio, esmagando os habitantes
locais, que agora representam só 5% da população total de Dubai.
Em apenas tres décadas uma cidade inteira
surgiu do nada. Um salto do século XVIII para o século XXI em apenas
uma geração.
Toda as noite os milhares de peões
estrangeiros que constroem Dubai são levados dos canteiros de obras para uma
imensidão de concreto, em pleno deserto, distante uma hora da cidade. Ali
permanecem isolados. São levados em ônibus fechados, que funcionam como estufas
no calor do deserto. São cerca de 300 mil homens que moram amontoados.
Nesse local que fede a esgoto e suor e que
foi o primeiro acampamento que visitei, logo fui cercado por moradores, ávidos
para desabafar com quem se dispusesse a ouvi-los.
Depois de muito ouvir, indago se o grupo se
arrepende de ter vindo. Todos olham para baixo. Depois de um tempo, alguém
rompe o silêncio: "Sinto saudade de meu país, da minha família, da minha
terra. Aqui, não dá para plantar nada. Só tem petróleo e obras."
Um cidadão inglês que trabalhou no setor de
construção me disse: "Ocorrem inúmeros suicídios nos
acampamentos e nas obras, mas ninguém quer tocar no assunto. Dizem que foi
acidente."
Um estudo da ONG Human Rights Watch revelou
que existe um ocultamento da real extensão das mortes causadas pela exposição
ao calor, excesso de trabalho e os suicídios.
Na distância, a cintilante silhueta de
Dubai se ergue indiferente.
O dia tem sempre a mesma luminosidade
artificial, o mesmo piso brilhante, as mesmas grifes de luxo globais. Neles,
Dubai se reduz à sua essência: compras e mais compras.
Como se sente o cidadão local diante da
ocupação de seu país por estrangeiros? Quando abordados, as mulheres
se calam e os homens se ofendem, respondendo secamente que está tudo bem.
Concluo que não é prudente sair perguntando
essas coisas para dubaienses. Dubai não é apenas uma cidade vivendo além de
seus recursos financeiros. O emirado vive além de seus recursos ecológicos.
Dubai bebe o mar. A água dos emirados, dessalinizada em fábricas espalhadas por
todo o Golfo, é a mais cara do planeta. Segundo Dr. Raouf, caso a recessão se
transforme em depressão, Dubai pode ficar desabastecida. O aquecimento global
piora ainda mais a situação.
"Estamos construindo todas essas ilhas
artificais, mas se o nível do mar subir afunda tudo..."
Na minha última noite no emirado, já a
caminho do aeroporto, parei numa pizzaria perdida em meio às autoestradas.
Pergunto à moça filipina do balcão se ela gosta do lugar.
"Gosto", diz ela, inicialmente. "Pois eu detesto", rebato.
Ela concorda e desabafa: "Demorei alguns meses para perceber que tudo aqui
é falso. Tudo. As palmeiras são falsas, os contratos de trabalho são falsos, as
ilhas são falsas, os sorrisos são falsos.. Dubai é como uma miragem. Você acha
que avistou água, mas quando chega perto vê que é só areia."
O estacionamento do aeroporto está repleto
de carros de luxo, não quitados, abandonados por pessoas que voltaram aos seus
países de origem.
(Segundo a reportagem alguns nomes nesse
artigo foram modificados). O artigo é bem mais extenso, mas cuidei em
resumir a reportagem de Johann Hari, sem furtar ao leitor entender o que é, de
fato, esse paraíso, chamado Dubai.
O texto acima é de Lucelena Maia da Revista Piauí.
* Paulo França é o Publisher do SOECONOMIA e
Economista pela Universidade de São Paulo, com Cursos em Ciências Políticas
e Administração de Empresas no Mestrado Stricto-Sensu. É articulista econômico
em Jornal (Boletim de Notícias de Goiás), tendo também experiências em
Revistas, Rádio, TV e Internet. Palestrante em diversos estados do Brasil
ministrando cursos de captação de recursos para o terceiro setor e setores
financeiro, em mineração, bens de capital, celulose,tecnologia, hotelaria,
automotivo, entre outros. Consultor em investimento e financiamento. Criador do
Soeconomia (veículo de comunicação, www.soeconomia.com.br). Autor do Livro
Captação de Recursos para Projetos e Empreendimentos com 3.000 exemplares
editados e disponível nas Livrarias Senac, Cultura, FNAC, MegaSaraiva,
Submarino, entre outras. |